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Classificação Científica

Reino: Animalia
Filo: Chordata
Classe: Aves
Ordem: Psittaciformes
Família: Psittacidae
 Rafinesque, 1815
Subfamília: Arinae
 Gray, 1840
Espécie: C. spixii

Nome Científico

Cyanopsitta spixii
(Wagler, 1832)

Nome em Inglês

Spix's Macaw


Estado de Conservação

(IUCN 3.1)
Em Perigo Crítico

Fotos Sons

Ararinha-azul

A ararinha-azul é uma ave da ordem dos Psittaciformes, da família Psittacidae.

A ararinha-azul foi descoberta e coletada em abril de 1819, por Johann Baptist Ritter von Spix (em Juazeiro, Bahia), e subsequentemente descrita por Johann Wagler em 1832. A área exata de ocorrência da espécie, no entanto, permaneceu indefinida e só pôde ser determinada após a eventual redescoberta da espécie em 1986 por Paul Roth, que encontrou as três últimas aves nos riachos Barra Grande-Melancia, no município de Curaçá, no nordeste da Bahia. Em 1990, uma expedição liderada por Carlos Yamashita e Tony Juniper encontrou uma única ave (um macho) remanescente na natureza.

Desde o início da década de 1990 há um projeto para a localização de outros indivíduos e a recuperação da espécie pela reintrodução na natureza daqueles que atualmente são mantidos em cativeiro.

Esse macho selvagem estava acasalado com uma fêmea de maracanã ou ararinha (Primolius maracana), e todo ano aninhavam com óbvia postura infértil, incubada pela fêmea descrita.
A substituição no ninho selvagem dos ovos inférteis gerados pelo casal, por ovos férteis obtidos junto a criadouros estrangeiros de ararinhas-azuis, poderia, em pouco tempo, produzir um pequeno grupo em expansão. Tudo isso poderia ser feito sob sigilo, prevenindo-se de curiosos e traficantes.

Houve tentativa de acasalamento deste macho, última ave em liberdade, com uma fêmea nascida em cativeiro.

A fêmea encontrou o macho selvagem dois meses após a soltura, por volta de 15 de maio de 1995. A partir desse momento ela não retornou mais para o viveiro, passando a voar com o macho, que a princípio se manteve pareado com a fêmea de maracanã (o CPRAA decidiu não remover a parceira do macho antes da soltura da fêmea de ararinha-azul para não alterar o seu comportamento de forma imprevisível). Depois de outra semana, o par coespecífico estava estabelecido e a fêmea de maracanã seguia o casal à distância. As duas ararinhas-azuis acompanhavam a maracanã até seu local de pernoite (uma cavidade em caraibeira) e depois voavam para seu próprio dormitório. No início de junho, a fêmea de maracanã pareou com um macho da sua espécie e as quatro aves voavam juntas. O par de ararinhas-azuis permaneceu junto até 15- 18 de junho, quando surgiu um novo padrão de deslocamento, após o qual a fêmea desapareceu e o macho restabeleceu o pareamento com a maracanã (Da-Ré, 1995). Intensivas buscas subsequentes não foram capazes de localizar a fêmea reintroduzida. Apenas em 1999 um morador local informou ao Projeto que ele teria, quatro anos antes, encontrado a fêmea morta sob uma linha de alta tensão. A equipe de campo vasculhou o local para tentar localizar restos da carcaça, mas nada foi encontrado, portanto esta hipótese não pôde ser confirmada (Barros et al., 1999).

Além desta alternativa, restava ainda a opção drástica mas necessária, da eliminação da fêmea de maracanã, antes da soltura da fêmea da mesma espécie (ararinha azul). Pois a fidelidade natural dos casais de psitacídeos, obviamente impediria que o macho aceitasse a nova fêmea se essa parceira estivesse presente.
Dois erros técnicos de manejo lamentáveis.

Entretanto, depois da morte do macho selvagem em 2000, e da não localização de novos indivíduos, a espécie está extinta na natureza, o que não é muito diferente de extinção total, já que os hábitos naturais da espécie não são preservados nas aves nascidas ou há muito tempo em cativeiro.

O declínio da espécie foi atribuído a dois fatores principais. Em primeiro lugar, pela destruição em larga escala do hábitat específico de mata de galeria do qual a espécie aparentemente dependia, e em segundo lugar pela captura para comércio ilegal nas últimas décadas (Juniper e Yamashita, 1990, 1991; Collar et al., 1992; Bampi e Da-Ré, 1994). Roth (1989) acreditava que os riachos arborizados já tinham se estendido por 50 km de cada lado do rio São Francisco. Mas na época que a última ave foi encontrada em 1990, parecia haver apenas duas pequenas manchas remanescentes ao sul do rio (Juniper e Yamashita, 1991; Juniper, 2002). Curiosamente, traficantes e moradores locais relataram que a espécie costumava viver também no lado norte do rio, mas que a supressão total da mata naquela região teria levado a espécie a se deslocar para o outro lado. Um fator que pode não ter recebido a devida atenção é a construção da barragem de Sobradinho na década de 70. A barragem começou a geração de energia em 1979 e está localizada a apenas 35 km rio acima de Juazeiro e Petrolina, e criou o maior reservatório do Brasil em termos de área de superfície (4,225 km²). A barragem alagou o vale do Rio São Francisco por vários quilômetros, incluindo qualquer hábitat potencial da ararinha-azul que pudesse haver na região (Juniper, 2002).

A captura ilegal para comércio foi sem dúvida alguma um fator decisivo para a extinção da ararinha-azul na natureza. Após capturas ocasionais na década de 20 com fins de comercialização na Europa e Estados Unidos, traficantes especializados iniciaram, nas décadas de 60 e 70, a captura de aves jovens e posteriormente adultas, depletando rapidamente a população remanescente para satisfazer a demanda dos mercados nacional e internacional (Roth, 1990; Juniper, 2002). Muitas das ararinhas-azuis que foram enviadas para colecionadores de aves durante as décadas de 70 e 80 foram fornecidas por apenas dois traficantes e seus ajudantes. Entre 1984 e 1987, o traficante de Petrolina comercializou oito aves: quatro adultas capturadas em 1984 e 1985, duas jovens entre 1985 e 1986, e dois ninhegos. Os últimos dois foram confiscados e recuperados no Paraguai em abril de 1987. Não há registros das aves comercializadas por este traficante nos anos antecedentes a 1984. O traficante do Piauí capturou 15 ararinhas entre 1977 e 1985, 13 delas sendo adultas. Ambos alegaram que todas as 23 aves que venderam eram de procedência das proximidades de Curaçá. Também foi mencionado que dois ninhegos retirados da natureza, em cada estação reprodutiva de 1984 a 1987, teriam vindo do ninho do último par reprodutivo selvagem (Thomsen e Munn, 2002 apud Juniper, 1988). Da-Ré (1993) afirma que a fonte de aves para o tráfico nas décadas de 60 e 70 não teria sido a subpopulação dos Riachos Barra Grande e Melancia. De acordo com ele a exploração desta subpopulação aumentou apenas na década de 80, e já em 1983, restavam apenas quatro aves. Fatores adicionais que parecem ter contribuído para o declínio da ararinha-azul são a caça e a presença das agressivas abelhas africanizadas (Roth, 1990; Juniper e Yamashita, 1991; Collar et al.,1992), mas não há evidências do impacto destes fatores.

Em 18 de junho de 2016 um indivíduo de ararinha-azul foi registrado por moradores locais voando livre na Caatinga de Curaçá, porém mesmo após algumas incursões de pesquisadores na tentativa de localizar o indivíduo, o mesmo nunca mais foi visto. Provavelmente tratava-se de uma ave de cativeiro que tenha sido solta ou que tenha escapado.

Atualmente é possível que não reste nenhum exemplar na natureza. Em 05 de agosto de 2019 haviam cerca de 166 em cativeiro. No Brasil, 13 deles – dois filhotes nascidos em 2019 – viviam em uma reserva em Minas Gerais. Os demais estavam espalhados pela Alemanha (147), Bélgica (4) e Cingapura (2).

Duas décadas depois de serem extintas do seu ambiente natural, no dia 03 de fevereiro de 2020, 52 Ararinhas-azuis (28 fêmeas e 24 machos, de idades que variam de 1 a 26 anos) desembarcaram em Petrolina, no Sertão de Pernambuco. As aves, que estavam na Alemanha, foram levadas para um centro de recuperação, construído especialmente para elas, em Curaçá, na Bahia. Os indivíduos foram para um centro, onde passarão por um processo de adaptação e treinamento para que sejam soltas na natureza.

No momento da repatriação (03/03/2020), existiam somente cerca de 180 exemplares em cativeiro, segundo dados do Instituto Chico Mendes de Biodiversidade (ICMBio): são 22 indivíduos no Brasil – que vivem no Criadouro Fazenda Cachoeira, em Minas Gerais; 2 na Bélgica; 2 em Cingapura e o restante (152) no criadouro alemão, a ACTP, de onde vieram os 52 animais.

O estudo de variabilidade genética das aves que chegaram ao Brasil foi conduzido por um especialista no assunto, o doutor Cromwell Purchase, pesquisador sul-africano com doutorado em Zoologia pela Universidade de Pretória. Pelas mãos de Purchase, a ACTP conseguiu o feito da reprodução em cativeiro de muitos indivíduos. No Brasil, sob orientação deste profissional, o plantel de aves da Fazenda Cachoeira subiu de 12 para 22, somente em 2019.

O Centro de Reprodução e Reintrodução das Ararinhas-Azuis foi construído pela ACTP e parceiros na cidade de Curaçá, dentro das unidades de conservação criadas pelo governo brasileiro como parte do PAN. Ao todo, foram investidos 1,9 milhão de euros no local – 1,5 mil euros na construção das dependências e 400 mil euros no transporte e preparação do Centro. O acordo firmado com o governo brasileiro também prevê aporte de 180 mil euros/ano para manutenção dos trabalhos durante cinco anos, quando o projeto será reavaliado.

Por ser uma propriedade privada, o Centro está sendo gerido pela ACTP, inicialmente com funcionários alemães – incluindo o pesquisador Cromwell Purchase, mas com o objetivo de capacitar a equipe do Brasil para que o Centro seja depois gerido por brasileiros.

A primeira soltura estava prevista para março de 2022, mas ocorreu no dia 11 de junho de 2022 através do processo de soltura branda de alguns casais deixando o viveiro aberto e comida do lado de fora sendo fechado à noite por causa dos predadores. Também foram programadas novas solturas para incremento da população, além de compensar a perda inicial de alguns indivíduos.

Nome Científico

Seu nome científico significa: do (grego) kuanos = azul escuro, azul intenso; e do (latim) psitta = papagaio; e de spixii, homenagem ao naturalista alemão e coletor de espécies no Brasil - (1817-1826), Johann Baptist Ritter von Spix - (1781-1826). ⇒ Papagaio azul escuro de Spix.

Características

A ararinha-azul Cyanopsitta spixii (Wagler, 1832), único representante de seu gênero, é um psitacídeo de tamanho médio (envergadura de 1,2m, comprimento do corpo 55-57 cm - Silva, 1993; Collar, 1997; Juniper e Parr, 1998 – e massa corpórea de 286-410 g em cativeiro) com uma cauda graduada particularmente longa e longas asas estreitas; loros e região perioftálmica nus e de coloração distinta (Silva, 1993; Juniper e Parr, 1998). Os adultos são principalmente azuis, mais claros na região ventral, mais escuros dos lados, costas parte superior das asas e cauda; a testa e as penas que cobrem o ouvido são acinzentadas, com tonalidade azul, o resto da cabeça e o pescoço são azul-acinzentados (Silva, 1993; Juniper e Parr, 1998; Barros in litt., 2005). As partes inferiores têm uma ligeira coloração esverdeada. Penas de voo e da cauda pretas. Anel perioftálmico nu e loros são cinza-escuro; íris conspicuamente clara ou amarela, bico preto e pernas cinza (Silva, 1993; Juniper e Parr, 1998). Bico negro franzino, provido de grande dente na maxila.

Durante o vôo parece quase negra, não há o menor vestígio de verde em toda plumagem.

Os imaturos lembram os adultos, mas são facilmente diferenciados: a cauda não é tão longa, a íris é cinza e o culmen do bico, que nos adultos é negro, tem uma faixa branca ou branco-acinzentada na frente (Smith, 1990; Silva, 1993). O bico se torna tão escuro quanto o de adultos com aproximadamente um ano de idade (Silva, 1993). A plumagem imatura também é de um azul mais escuro acima da área facial nua (loros e anel ocular), branco-acinzentada (Juniper e Parr, 1998; Collar, 1997). Não existe dimorfismo sexual relatado (Silva, 1993; Collar, 1997; Juniper e Parr, 1998).

Subespécies

Não possui subespécies.

Alimentação

Alimenta-se de frutos e sementes, gostando de empoleirar-se sobre as pontas dos galhos secos. Realiza migrações locais, quando frequenta também buritizais.

A lista de itens abaixo possivelmente está incompleta para a ararinha-azul, dada a amostra limitada de uma a três aves selvagens estudadas. De acordo com Barros (2001), que obteve registros de alimentação do último exemplar selvagem conhecido de ararinha-azul no período entre julho de 1997 e julho de 1999, foram utilizadas onze espécies vegetais como alimento: pinhão (Jatropha mollissima), favela (Cnidoscolus phyllacanthus), juazeiro (Ziziphus joazeiro), baraúna (Schinopsis brasiliensis), imburana (Commiphora leptophloeos), facheiro (Pilosocereus piauhiensis), além de registros indiretos, por meio de sementes encontradas nas fezes: enxerto (Phoradendron sp.), caraibeira (Tabebuia aurea), angico (Anadenanthera macrocarpa), umbu (Spondias tuberosa) e unha-de-gato (Acacia paniculata). Entretanto, relatórios de pesquisadores que trabalharam anteriormente com a ararinha-azul adicionam outras duas espécies à lista, perfazendo um total de treze espécies: pau-de-colher (Maytenus rigida, Roth, 1990) e marizeiro (Geoffroea spinosa, Pontual, 1992). Da-Ré (1994) adiciona também freijó (Cordia sp.), mas a espécie é provavelmente Combretum leprosum, que foi erroneamente identificada (Y. M. Barros, com. pess.). Dos itens ingeridos, 90,1 % foram sementes e o pinhão foi utilizado em 54,13% das visitas de alimentação (feeding bouts) registradas da ararinha-azul (n=110). Desta planta são utilizadas sementes, botões de flores e o látex contido nos pecíolos. O pinhão foi a única espécie disponível para alimentação durante todo o ano, embora no pico do período seco (setembro e outubro) a quantidade disponível fosse muito reduzida, permanecendo poucos indivíduos frutificando, geralmente em regiões onde o solo apresentava umidade como as várzeas. Outra espécie importante foi a faveleira (Barros, 2001). A distribuição destas duas espécies ocorre em manchas. Em anos “normais” ambas têm um período de frutificação relativamente longo, com pico de produtividade no auge da estação chuvosa (janeiro a março), mas podem ser encontrados indivíduos frutificando em várias localidades nos meses posteriores (Da-Ré, 1992; Barros, 2001). Também são as espécies mais abundantes durante a estação chuvosa. Em anos secos, frutos de pinhão e favela podem ser encontrados entre abril e setembro (Da-Ré, 1994). Em anos chuvosos, estas espécies são mais abundantes ao longo do ano e isto favorecia a permanência do exemplar remanescente de ararinha-azul nas proximidades de riachos com caraibeiras, sem que a ave tivesse que empreender longos deslocamentos para o interior da Caatinga a procura de alimento. Nos meses de junho e julho as plantas destas espécies começam a secar e a oferta de frutos diminui. Nos meses mais secos, há a disponibilidade de frutos de caraibeira e baraúna, bastante utilizados (Barros, 2001). Yamashita (in litt. 1990 para N. Collar, in Collar et al., 1992) afirma que tanto a faveleira quanto o pinhão são colonizadores, não fazendo parte da vegetação original da região.Enquanto Roth (1990) acreditava que o alimento não era um recurso limitante para a ararinha-azul. Evidências posteriores mostram claramente que as araras enfrentavam lacunas na disponibilidade de alimentos. Dependendo das particularidades de cada ano, aparentemente uma ou várias lacunas na disponibilidade de alimentos ocorriam. Informações em relatórios e publicações não são totalmente consistentes com relação a estes períodos de escassez, pois há variações interanuais, mas parece evidente que as lacunas críticas de alimento ocorriam nos meses de novembro e dezembro, pouco antes do início da estação chuvosa (Da-Ré, 1994b; 1995b). Sem chuva, esta situação se agravava.

Reprodução

A biologia reprodutiva de um par de ararinhas-azuis selvagens puro, coespecífico, nunca pode ser adequadamente estudada. Portanto, as informações sobre a biologia reprodutiva da espécie vem de relatos anedotais de moradores locais (particularmente traficantes de aves) ou de observações do par heteroespecífico formado pelo último macho selvagem conhecido de ararinha-azul e uma fêmea de maracanã.

A estação reprodutiva das ararinhas-azuis, que coincide com a de maracanãs, na área dos Riachos Barra Grande/Melancia dependia do início da estação chuvosa, mas normalmente se estendia de novembro a março, com a busca e exploração de ninhos tendo início com as primeiras chuvas, em outubro. As posturas da ararinha-azul na natureza geralmente continham dois a três ovos (Collar, 1997), dos quais normalmente dois a três ninhegos eclodiam com sucesso no final de janeiro (Roth, 1990). Não existem registros sobre a idade reprodutiva na natureza. De acordo com dados históricos do Livro de Registros Genealógicos (Studbook) Internacional, o macho mais jovem reproduziu com cinco anos de idade (ave studbook nº 15), e a fêmea mais jovem reproduziu com quatro anos (ave studbook nº 17). As aves com idade mais avançada que se reproduziram tinham 24 anos de idade (studbook nº 12 e 20). Entretanto, pode-se presumir que a vida reprodutiva da espécie pode, no geral, se estende além desta idade. De acordo com Silva (1993), araras criadas em cativeiro geralmente atingem a maturidade mais rápido que aves selvagens. O período de incubação também não é conhecido na natureza e em cativeiro gira em torno de 26 a 27 dias (Silva, 1993; Collar, 1997). Na área dos Riachos Barra Grande/ Melancia a espécie utilizava quase exclusivamente cavidades existentes em caraibeiras para nidificação. Entretanto, registros da área do Riacho da Brígida, ao norte do Rio São Francisco, sugerem a possibilidade de que a principal árvore utilizada para a nidificação seria o muquém. O mulungu (Erythrina velutina) também era uma árvore utilizada para nidificação de acordo com moradores locais (Da-Ré, 1994). O par heteroespecífico (na área dos Riachos Barra Grande/ Melancia) também utilizou preferencialmente caraibeiras para nidificação, embora em uma ocasião tenha sido observada a utilização do muquém (Barros, 1999). As árvores de nidificação e cavidades tenderam a mudar a cada estação reprodutiva, sendo vários sítios utilizados.

As cavidades usadas pela ararinha-azul são primariamente ninhos abandonados de pica-paus (Campephilus melanoleucus) (Da-Ré, 1995; Barros, 1997; 1997; 2001) ou formados naturalmente por galhos quebrados. Ararinhas-azuis e maracanãs não escavam seus próprios ninhos, mas forram a câmara oológica roendo a madeira das paredes internas das cavidades. Isto facilita a secagem das fezes líquidas, deixando o ninho limpo (Guedes, 1995). Ninhos utilizados em estações reprodutivas consecutivas pelo par heteroespecífico sofreram alterações de um ano para o outro, geralmente havendo aumento na profundidade da câmara oológica. Este aumento foi registrado inclusive em uma mesma estação reprodutiva. Após a perda da primeira postura por predação dos ovos, o par aprofundou mais a câmara oológica antes de realizar nova postura. Esta “reforma” de ninhos também foi observada em arara-azul-grande (A. hyacinthinus; Guedes, 1995) e arara-canindé (A. ararauna; Bianchi, 1998). Roth (1990) acreditava que a ararinha-azul usaria cavidades maiores e que as menores, que acomodariam maracanãs, seriam insuficientes para a ararinha-azul, mas não apresenta evidências. O estudo realizado por Barros (2001) mostra que o par heteroespecífico utilizava ninhos com características semelhantes aos utilizados por maracanãs, entretanto as dimensões destes ninhos não podem ser extrapoladas para os ninhos de casais de ararinhas-azuis. Também não foi possível determinar se a escolha dos ninhos utilizados pelo par heteroespecífico era determinada pela ararinha-azul ou pela maracanã. Para acessar a disponibilidade e as características das cavidades e árvores de nidificação, tanto M. Da-Ré quanto Y. de Melo Barros conduziram censos detalhados de caraibeiras ao longo dos riachos sazonais na área dos Riachos Barra Grande/Melancia. Foi realizado um censo (Barros, 1997) em 166 km ao longo de onze riachos com caraibeiras (a área de censo incluiu o Riacho da Melancia de Barro Vermelho até o Barra Grande e riachos adjacentes como os Riachos do Banguê, da Vitória, da Serra Redonda, do Salgado, dos Olhos D’água, Mocó, Ema, Cana Brava e Caraibinha). As coordenadas de cada caraibeira com potenciais ninhos foram registradas, as árvores foram numeradas, medidas e foram registradas as cavidades e seus ocupantes. Foi registrado um número alto de caraibeiras e de cavidades, e 96% das árvores com cavidades estavam vivas, mas este número não necessariamente reflete a real disponibilidade de ninhos. Conforme já observado por Newton (1994) e Bianchi (1998), a disponibilidade real de cavidades para ninhos é frequentemente menor que a disponibilidade aparente, determinada pela contagem de cavidades presentes, pois muitos dos ocos disponíveis não são adequados. Foram encontradas 970 cavidades em 533 árvores, em média, 1,77 (d=0,23) cavidades por árvore. A média de altura das árvores foi de 20,70 ± 4,75 m, e seu diâmetro na altura do peito (DAP) médio 92,56 ± 12,89 cm. As cavidades encontradas estavam a uma altura média de 8.62 ± 1,54 m. O diâmetro maior da abertura (DMA) destas foi 10,72 cm ± 1,04. Destas cavidades, 5,25% estavam ocupadas por abelhas (Barros, 2001).

Hábitos

O hábitat natural da ararinha-azul é a caatinga seca e as florestas ciliares abertas de pequenos afluentes temporários do rio São Francisco, em um tipo de vegetação onde predominam as caraibeiras (Tabebuia caraiba), árvore da família das bignoniaceas, uma espécie de ipê com ocorrência no nordeste brasileiro.

O hábitat específico no qual a última população foi encontrada, e onde foram registradas alimentação e reprodução, são florestas de galeria ao longo de riachos sazonais, que ao sul do Rio São Francisco são dominadas por caraibeiras (Tabebuia aurea, Bignoniaceae). Juniper e Yamashita (1990) determinaram que os bosques de caraibeiras remanescentes representavam uma área de apenas 30 km². As observações destes autores e pesquisas posteriores indicam que a ararinha é uma especialista de hábitat, limitada a esse tipo de ambiente. Entretanto, as novas análises especulam que a ararinha-azul pode ter sido menos especialista de hábitat do que se costumava acreditar desde 1986. Primeiramente, as matas na margem norte do Rio São Francisco, que foram completamente convertidas em terras agrícolas nas décadas de 60 e 70, foram possivelmente dominadas por outra espécie de árvore, o muquém (provavelmente Albizia polyantha syn. Pithecellobium multiflorum, Mimosaceae), uma espécie que também ocorria ao longo do Rio São Francisco antes da quase deflorestação completa de suas margens. Em segundo lugar, há a possibilidade de que a espécie possa ter sido deslocada de parte de sua distribuição original devido ao alagamento de centenas de quilômetros do Rio São Francisco na década de 70, pela barragem de Sobradinho. O município de Curaçá, onde foram encontrados os três últimos exemplares de ararinha-azul, está localizado na zona fisiogeográfica do Sertão do São Francisco, na divisa entre Bahia e Pernambuco, entre 8°59’S e 39°54’W, a uma altitude de 350 m, possuindo uma área de 6.442 km² e uma população de 32.449 habitantes (IBGE, 2007 – http://www.ibge.gov.br/ cidadesat, acessado em 16/02/09). Uma mudança similar supostamente ocorreu quando as aves se deslocaram da margem norte para a margem sul, quando as matas de galeria do lado de Pernambuco foram eliminadas. Na teoria, a única localidade confirmada de ararinhas-azuis deve ter sido meramente um relicto, e a especialização de hábitat uma adaptação local a uma última alternativa viável de hábitat. Esta questão merece atenção, pois pode ter implicações no potencial de restabe ecimento da espécie e no trabalho que deverá ser desenvolvido de recuperação de hábitat.

Na área onde a última ararinha-azul foi estudada, a água é localmente abundante durante a estação chuvosa (dezembro-abril) e nos meses subsequentes, nos riachos sazonais, lagoas naturais e reservatórios artificiais. Com a chegada da estação seca, estas fontes de água gradualmente desaparecem, até o pico da estação seca (setembro-novembro), quando a água pode ser encontrada em poucos locais no interior da Caatinga. Durante longos períodos de seca, a água se torna escassa e a principal fonte remanescente natural de água é o próprio Rio São Francisco. Durante a estação chuvosa tanto a disponibilidade de água quanto a fisionomia da caatinga sofrem alterações drásticas. O Rio São Francisco é portanto considerado crítico para a sobrevivência em períodos de seca e especula-se que a distância para o rio pode ter sido um fator que restringiu a área de distribuição histórica da ararinha-azul ao interior da Caatinga. Os registros históricos reconhecidos da ararinha-azul parecem reforçar este padrão. A última ararinha-azul selvagem e as maracanãs (Primolius maracana) não foram observadas nas margens do Rio São Francisco (Barros, 2001), entretanto um morador de uma das ilhas do rio relatou que a ararinha-azul remanescente, que na época estava pareada com uma maracanã, pernoitou uma noite na ilha em setembro/97.

Gostam de empoleirar-se sobre as pontas dos galhos secos. Realizam migrações locais, quando freqüenta também buritizais.

Várias fontes independentes confirmaram que a ararinha-azul tradicionalmente utilizava, tanto nos Riachos Barra Grande-Melancia e da Vargem, grandes cactos colunares de espinhos macios de facheiro como dormitórios. Pelo menos ocasionalmente estes eram inclusive usados como dormitórios comunais (relatos de moradores locais; Da-Ré, 1994).

Distribuição Geográfica

Encontrada exclusivamente no Brasil. A área de distribuição histórica confirmada da ararinha-azul está localizada na Caatinga do Nordeste. Originalmente a espécie ocorria no extremo norte da Bahia, ao sul do rio São Francisco, na região de Juazeiro e Curaçá.

Há evidências de possível ocupação também na região do Riacho da Brígida, nos municípios de Orocó e Parnamirim, como único sítio específico de ocorrência histórica reconhecida do lado norte do Rio São Francisco (Pernambuco), de acordo com buscas e entrevistas com moradores locais em dezembro de 1993 por Da-Ré (1994; 1994), (ver também Juniper, 2002; Pontual 1992).

Referências

Galeria de Fotos